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Análise · Eleições 2026

A virada de Lula: como o segundo turno de 2026 mudou o rumo da eleição

Da reorganização da campanha petista à disputa sobre o futuro do STF, a eleição foi marcada pela mobilização popular, por medidas econômicas e por uma batalha de narrativas que explorou o medo dos eleitores.

No dia 4 de outubro de 2026, o resultado do primeiro turno colocou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) diante de um cenário que poucos de seus aliados esperavam enfrentar. O Sen. Flávio Bolsonaro (PL/RJ) havia conquistado 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do petista. A diferença de quase 2,3 milhões de votos dava ao candidato da oposição uma vantagem importante, especialmente porque parte dos eleitores dos candidatos derrotados estava mais próxima do campo da direita.

Três semanas depois, o resultado foi outro. Lula conquistou seu quarto mandato presidencial com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, uma diferença de 4,43 milhões de votos. Pela primeira vez desde a redemocratização, o candidato que terminou o primeiro turno em segundo lugar conseguiu reverter a desvantagem na disputa presidencial.

O que aconteceu nesse intervalo? A resposta não está em um único acontecimento. O segundo turno foi marcado por uma mudança profunda na organização da campanha petista, pela mobilização nas ruas e nas redes sociais, por anúncios de políticas públicas e por uma disputa de narrativas que colocou em questão não apenas os programas de governo, mas também o futuro das instituições brasileiras. Para compreender a vitória de Lula, é necessário observar tanto a reação de sua campanha quanto as escolhas feitas pelo adversário.

André Janones em pronunciamentoLula e Rafael Fonteles em evento
André Janones e Rafael Fonteles estiveram entre os personagens da campanha petista.

A campanha que precisou começar de novo.

A reação petista começou pelo reconhecimento de que a estratégia adotada no primeiro turno não havia funcionado como se esperava. Insatisfeito, Lula chegou a classificar aquela como a campanha mais desorganizada de que havia participado desde 1989. O resultado provocou alterações na coordenação política, na comunicação e na agenda do presidente.

Uma das principais mudanças foi a entrada de três lideranças do Nordeste no núcleo estratégico: o Sen. Camilo Santana (PT/CE), responsável pela articulação política; Rui Costa (PT/BA), encarregado de organizar a agenda presidencial; e o governador Rafael Fonteles (PT/PI), que assumiu protagonismo na área de comunicação.

A participação de Fonteles merece destaque. Reeleito governador do Piauí com 70,90% dos votos válidos no primeiro turno, ele chegou à campanha nacional fortalecido por um desempenho eleitoral expressivo e pela experiência de uma comunicação política que havia funcionado em seu estado. Sua entrada representou uma tentativa de renovar a linguagem da campanha e aproximá-la de um eleitorado que já não respondia da mesma forma aos métodos tradicionais do PT.

É difícil atribuir a uma única pessoa o resultado de uma reorganização dessa dimensão. Ainda assim, a atuação de Fonteles foi importante para a mudança de estratégia, especialmente na comunicação e na mobilização política. A campanha passou a apresentar propostas, intensificar sua presença digital e explorar de maneira mais direta as fragilidades do adversário. O próprio Lula também assumiu maior controle sobre as decisões.

Nesse processo, outro personagem ganhou espaço: o Dep. André Janones (REDE/MG). Responsável pela mobilização do chamado “Exército do Lula”, uma rede de apoiadores organizada principalmente pelo WhatsApp, Janones tornou-se uma das figuras mais influentes da reação digital petista.

A proposta não era apenas distribuir conteúdos oficiais, mas fazer com que os próprios apoiadores participassem da campanha. Mensagens eram compartilhadas em grande escala, influenciadores passaram a atuar de maneira coordenada e a mobilização digital começou a ganhar expressão nas ruas. Artistas, movimentos sociais e setores da juventude também se engajaram na disputa, ajudando a produzir manifestações que ultrapassaram a estrutura partidária tradicional.

Lula passou a participar de caminhadas, encontros e grandes atos públicos, ampliando sua exposição na imprensa e nas redes sociais. A Avenida Paulista, em São Paulo, tornou-se um dos principais símbolos dessa mobilização.

A estratégia de Flávio Bolsonaro seguiu inicialmente outro caminho. Depois de terminar o primeiro turno na liderança, o senador concentrou esforços na construção de alianças políticas e na consolidação do apoio de lideranças da direita e do centro. O movimento tinha lógica eleitoral, mas produziu uma diferença de ritmo entre as candidaturas. Enquanto Lula intensificava sua presença nas ruas, Flávio dedicava parte importante de sua agenda às articulações partidárias.

O candidato do PL ampliou posteriormente suas atividades públicas, mas a reação petista já havia ganhado força. A vantagem conquistada no primeiro turno, que parecia oferecer alguma tranquilidade à oposição, mostrou-se insuficiente diante de uma campanha que passou a disputar cada voto com intensidade.

Propostas sociais e decisões econômicas na reta final

A mudança de estratégia também apareceu nas propostas apresentadas ao eleitorado. O PT deixou de concentrar sua comunicação apenas nas realizações do governo e passou a defender medidas com impacto mais imediato na vida dos trabalhadores e das famílias.

O acontecimento mais simbólico foi a aprovação da PEC 221/2019, de autoria do Dep. Reginaldo Lopes (PT/MG), que estabelece o fim da escala de trabalho 6x1. A proposta foi aprovada pelo Senado Federal em 14 de outubro, por 75 votos favoráveis e apenas um contrário, nos dois turnos de votação. Em 16 de outubro, o Congresso Nacional promulgou a Emenda Constitucional nº 141/2026, com a participação de Lula na cerimônia.

A medida prevê dois dias de descanso semanal remunerado e a redução gradual da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem diminuição salarial. A aprovação, apenas nove dias antes do segundo turno, ofereceu à campanha petista uma conquista de grande repercussão social. Embora a proposta tivesse uma trajetória legislativa anterior e dependesse da atuação do Congresso, sua promulgação na reta final permitiu ao presidente associá-la à agenda de valorização do trabalho.

Outras iniciativas também ganharam destaque. A campanha apresentou a proposta de um Pé-de-Meia universitário, anunciou medidas de apoio aos microempreendedores individuais e defendeu a ampliação da gratuidade do transporte público. O objetivo era mostrar que a continuidade do governo não significaria apenas preservar programas existentes, mas também ampliar benefícios.

Outro movimento importante ocorreu com o reajuste de 15,04% do Bolsa Família, anunciado pelo governo em 17 de setembro, por meio do Decreto nº 13.120/2026, com efeitos a partir de outubro. O valor mínimo por família passou de R$ 600 para R$ 691, enquanto o benefício médio estimado subiu de R$ 675 para R$ 777. Segundo o governo, a atualização correspondia à inflação acumulada pelo INPC desde março de 2023.

A medida tinha uma justificativa econômica concreta: recompor o poder de compra dos beneficiários. Mas sua implementação às vésperas da eleição também produziu efeitos políticos, oferecendo ao presidente um argumento importante na disputa pelo voto das famílias de menor renda.

Na mesma direção, em 9 de outubro, o governo anunciou a prorrogação de desonerações tributárias sobre gasolina e etanol, além de medidas de subvenção relacionadas aos combustíveis. A justificativa apresentada foi conter os efeitos da alta internacional do petróleo e evitar novos aumentos para os consumidores.

A proximidade desses anúncios com a votação alimentou críticas da oposição sobre o uso eleitoral de medidas governamentais. O episódio permite uma comparação com 2022, quando o governo Jair Bolsonaro também adotou medidas de redução dos preços dos combustíveis durante a campanha presidencial. Nos dois casos, decisões econômicas de impacto direto sobre o orçamento das famílias ganharam importância política em momentos decisivos da disputa.

A disputa pelo medo de perder direitos

Além de apresentar propostas, a campanha de Lula procurou convencer os eleitores de que a vitória de Flávio Bolsonaro poderia representar riscos para políticas sociais.

Um dos principais instrumentos dessa estratégia foi o chamado “tesouraço”. Flávio defendia um ajuste expressivo nas despesas públicas, com redução de gastos e reorganização da máquina federal. A campanha petista passou a associar essa proposta à possibilidade de cortes no Bolsa Família, no SUS, no Farmácia Popular, no Pé-de-Meia e em outras políticas públicas.

A estratégia explorava uma questão que o adversário não havia esclarecido suficientemente: de onde sairiam os recursos necessários para alcançar a economia prometida? Flávio afirmava que os cortes atingiriam desperdícios, estruturas administrativas e privilégios, mas a ausência de um detalhamento completo facilitava a construção de cenários negativos pela campanha adversária.

O debate sobre o Bolsa Família ganhou força em 19 de outubro, quando Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha de Flávio, apresentou a proposta de uma regra de transição de dois anos para beneficiários que conseguissem emprego formal ou abrissem um negócio. Segundo ela, essas famílias continuariam recebendo o auxílio durante o período de adaptação, com possibilidade de retorno ao programa caso voltassem a precisar do benefício.

A declaração, entretanto, foi explorada como se a proposta estabelecesse um prazo de dois anos para o encerramento do Bolsa Família. O episódio demonstra como uma informação verdadeira, apresentada fora de seu contexto, pode ser transformada em uma mensagem manipulada para induzir medo e insegurança alimentar, especialmente entre famílias que dependem da transferência de renda para atender às necessidades básicas.

A discussão sobre aposentadorias e salário-mínimo seguiu uma lógica semelhante. Integrantes da equipe econômica de Flávio estudavam alterações nas regras de vinculação dos benefícios previdenciários aos ganhos reais do salário-mínimo. A possibilidade de corrigir determinados benefícios apenas pela inflação, sem aumentos reais, passou a ser apresentada pelos adversários como ameaça aos aposentados.

Há uma diferença importante entre suspender reajustes, corrigir benefícios pela inflação e deixar de conceder aumentos acima dela. Flávio negou que pretendesse prejudicar os aposentados e prometeu preservar seus direitos. Ainda assim, a discussão econômica abriu espaço para uma campanha voltada à insegurança financeira de idosos e trabalhadores.

Em uma disputa marcada pela rejeição aos dois candidatos, a percepção de risco passou a ocupar um lugar central. Para parte do eleitorado, a decisão já não era apenas escolher o melhor projeto de governo, mas evitar aquele que parecia representar uma ameaça maior à sua renda, aos seus direitos ou à sua segurança.

Outro episódio revelador ocorreu quando Flávio Bolsonaro declarou que pretendia mudar a Constituição para “redemocratizar” o país. A fala, inicialmente pouco detalhada, foi associada por adversários à possibilidade de uma ruptura institucional. Posteriormente, o senador esclareceu que se referia a propostas como a redução da maioridade penal, mudanças no Judiciário, alterações na reforma tributária e o fim da reeleição presidencial.

A Constituição brasileira prevê sua própria alteração por meio de Propostas de Emenda à Constituição (PECs), respeitados os procedimentos e limites estabelecidos em seu artigo 60. Portanto, defender uma mudança constitucional não significa, necessariamente, pretender romper com a ordem democrática.

Isso não impede que o conteúdo de uma reforma seja questionado. Mas evidencia o quanto uma declaração ambígua pode adquirir significados diferentes em um ambiente eleitoral polarizado e ser utilizada como arma política.

Fachada do Supremo Tribunal Federal
O Supremo Tribunal Federal esteve no centro do debate institucional.

O Supremo Tribunal Federal no centro da disputa

Se a campanha de Lula procurava associar Flávio Bolsonaro à perda de direitos e ao risco de retrocessos democráticos, a candidatura do PL adotou uma estratégia semelhante em relação ao funcionamento das instituições brasileiras, especialmente do Supremo Tribunal Federal.

A composição do STF foi transformada em um dos principais argumentos de Flávio contra a reeleição de Lula. Durante um ato realizado na Avenida Paulista, em 7 de setembro, o senador afirmou: “Quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes.” A frase procurava estabelecer uma ligação direta entre o presidente da República e o Min. Alexandre de Moraes, uma das figuras mais criticadas pelo bolsonarismo.

Flávio argumentava que a continuidade do governo petista permitiria a ampliação de uma suposta aliança política entre o Executivo e integrantes do Judiciário. Em seus discursos, acusava ministros do Supremo de perseguir adversários, interferir na política e utilizar decisões judiciais para limitar a atuação da oposição. Também associava a permanência de Lula no poder à possibilidade de novos julgamentos sobre temas sensíveis, como aborto, drogas e direitos individuais, sob uma perspectiva contrária à defendida pelos conservadores.

O temor apresentado pela oposição tinha um componente institucional concreto: o presidente eleito em 2026 teria a possibilidade de realizar quatro indicações ao STF durante o mandato iniciado em 2027.

Uma vaga já estava aberta desde a aposentadoria antecipada do Min. Luís Roberto Barroso, em 2025. Outras três surgiriam com as aposentadorias compulsórias do Min. Luiz Fux, em abril de 2028; da Min. Cármen Lúcia, em abril de 2029; e do Min. Gilmar Mendes, em dezembro de 2030.

Como Lula já havia indicado os ministros Dias Toffoli, Cristiano Zanin e Flávio Dino, a confirmação de quatro novos nomes permitiria que o presidente encerrasse o mandato tendo escolhido sete dos onze integrantes do Supremo. A composição da Corte, portanto, poderia passar por uma mudança expressiva em apenas quatro anos.

Foi justamente essa possibilidade que a campanha de Flávio explorou. O senador alertava para o risco de concentração de influência política no STF e sustentava que novas indicações poderiam favorecer o governo e enfraquecer os mecanismos de controle sobre o Executivo. Em manifestações públicas, chegou a afirmar que não permitiria a nomeação de mais quatro ministros com perfil semelhante ao de Alexandre de Moraes.

A preocupação ganhou uma dimensão ainda mais dramática quando Eduardo Bolsonaro afirmou, nas redes sociais, que não haveria eleições presidenciais em 2030 caso Flávio não fosse eleito. A justificativa apresentada era que Lula, com novas indicações ao Supremo, poderia consolidar uma estrutura de poder capaz de controlar também a Justiça Eleitoral.

É importante observar que a escolha de ministros pelo presidente da República faz parte do funcionamento constitucional do país e depende da aprovação do Senado Federal. Além disso, ter sido indicado por determinado presidente não significa que um ministro esteja obrigado a decidir em favor dele. Ainda assim, a possibilidade de um único chefe do Executivo indicar a maioria dos integrantes da Corte possui relevância política e institucional, especialmente em um ambiente de desconfiança entre os Poderes.

A campanha do PL também recorreu à comparação com a Venezuela. O argumento era que um Judiciário alinhado ao Executivo poderia, gradualmente, enfraquecer o Legislativo e limitar a atuação da oposição. A referência remetia ao processo de concentração de poder venezuelano, no qual decisões do Tribunal Supremo de Justiça contribuíram para retirar competências da Assembleia Nacional, especialmente a partir de 2016 e 2017.

A comparação não demonstra que o Brasil seguiria necessariamente o mesmo caminho. As estruturas políticas e institucionais são diferentes. Entretanto, mostra como acontecimentos internacionais foram utilizados para alimentar o receio de que a continuidade de um governo pudesse alterar o equilíbrio entre os Poderes.

Do lado petista, o discurso sobre a democracia também ocupou espaço central. A campanha associou Flávio à trajetória política de Jair Bolsonaro e aos acontecimentos relacionados à tentativa de ruptura institucional após as eleições de 2022. A possibilidade de retorno da família Bolsonaro ao Palácio do Planalto foi apresentada como um risco de enfraquecimento das instituições, especialmente diante da perspectiva de um Congresso mais favorável à direita.

Dessa forma, as duas candidaturas apresentavam aos eleitores versões distintas de um mesmo temor. Para os apoiadores de Lula, uma vitória de Flávio poderia comprometer a democracia e abrir caminho para novos conflitos institucionais. Para os apoiadores de Flávio, a reeleição de Lula poderia ampliar a influência do PT sobre o Judiciário, permitir novas decisões contrárias à oposição e comprometer a realização de eleições livres no futuro.

Essa disputa produziu um efeito que vai além das urnas: a corrosão da confiança nas instituições democráticas. Quando os eleitores são constantemente informados de que o adversário pretende destruir a democracia, controlar os tribunais ou eliminar direitos fundamentais, passam a enxergar a vitória do outro lado não apenas como uma derrota política, mas como uma ameaça à própria existência do regime democrático.

A ciência política oferece instrumentos para compreender esse fenômeno. Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, em Como as Democracias Morrem, discutem a importância da aceitação mútua entre adversários e do respeito às regras institucionais. Milan Svolik analisa como a polarização pode levar cidadãos a tolerar comportamentos contrários à democracia quando praticados por políticos de sua preferência. Andreas Schedler, por sua vez, aborda o modo como a polarização transforma adversários em inimigos políticos.

O problema não está em questionar decisões judiciais, propor reformas institucionais ou criticar governos. Essas são práticas legítimas de uma democracia. A dificuldade surge quando o discurso político passa a apresentar, de maneira permanente, os mecanismos institucionais como instrumentos de perseguição e a alternância de poder como uma ameaça existencial.

A eleição de 2026 deixou evidente esse ambiente. O PT procurou convencer o eleitorado de que a democracia estaria ameaçada com a volta do bolsonarismo ao Executivo. O PL argumentou que a democracia já estaria sendo enfraquecida pela atuação de ministros do STF e que a reeleição de Lula aprofundaria esse processo.

Em comum, as duas campanhas contribuíram para reforçar a percepção de que o sistema político brasileiro não oferece garantias suficientes contra os abusos do grupo adversário. Independentemente da eficácia eleitoral dessas narrativas, seus efeitos sobre a confiança pública nas instituições merecem atenção.

A mobilização que alterou o resultado

A intensa disputa de narrativas ocorreu paralelamente a uma mudança importante no comportamento do eleitorado. A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,22% no segundo, contrariando a tendência histórica de aumento do não comparecimento entre as duas etapas das eleições presidenciais.

Em números absolutos, aproximadamente 2,96 milhões de eleitores adicionais compareceram às urnas. Também houve redução dos votos brancos e nulos, ampliando o total de votos válidos.

A campanha petista trabalhou intensamente para estimular esse comparecimento. Mensagens distribuídas nas redes sociais, manifestações públicas e a atuação de lideranças regionais procuravam convencer eleitores que haviam se abstido no primeiro turno a participar da votação decisiva.

O Nordeste teve papel importante nesse movimento. Em sete estados da região, os índices de abstenção ficaram abaixo da média nacional. A atuação de governadores, prefeitos e parlamentares ajudou a organizar a mobilização territorial, especialmente em localidades onde a eleição estadual já havia terminado no primeiro turno.

Esse trabalho também ajuda a compreender a importância da reorganização da campanha e da entrada de Rafael Fonteles, Camilo Santana e outras lideranças no núcleo estratégico. A reação petista não dependia apenas da comunicação nacional. Era necessário transformar o engajamento político em comparecimento efetivo às urnas.

O resultado mostrou a dimensão dessa reação. Lula passou de 53,88 milhões de votos no primeiro turno para 64,26 milhões no segundo, crescimento de aproximadamente 10,38 milhões. Flávio Bolsonaro, por sua vez, avançou de 56,10 milhões para 59,83 milhões, acrescentando cerca de 3,72 milhões.

A diferença de crescimento foi decisiva para a virada. Lula ampliou sua votação nas 27 unidades da Federação e conquistou Minas Gerais, o único estado em que houve mudança de vencedor entre os turnos. Também reduziu a vantagem de Flávio em estados importantes do Sudeste, especialmente São Paulo e Rio de Janeiro.

Os dados indicam que a combinação entre maior comparecimento, redução de votos brancos e nulos e transferência de votos de candidatos derrotados favoreceu a candidatura petista. Não é possível, entretanto, determinar a origem individual desses votos apenas pelos resultados agregados.

O que se pode afirmar é que Lula conseguiu ampliar seu eleitorado de maneira muito mais expressiva que Flávio, justamente no período em que sua campanha intensificou a mobilização política e passou a disputar com mais força o voto daqueles que ainda estavam indecisos.

As pesquisas e os limites da previsão eleitoral

Mesmo com a reação petista, pesquisas divulgadas na reta final continuaram mostrando Flávio Bolsonaro numericamente à frente, embora dentro da margem de erro. A Quaest, na véspera da votação, registrou 51% dos votos válidos para Flávio e 49% para Lula.

Outros indicadores, porém, sugeriam um cenário menos favorável ao candidato do PL. A rejeição a Flávio era numericamente superior à de Lula, enquanto a avaliação do governo apresentava sinais de recuperação. A campanha petista também havia conseguido colocar a discussão sobre perdas sociais e riscos políticos no centro do debate.

Esses elementos ajudam a compreender o ambiente que antecedeu a eleição, mas não são suficientes para atribuir a virada a uma única estratégia. Pesquisas medem tendências em determinados momentos; o resultado depende dos eleitores que efetivamente comparecem às urnas e das decisões tomadas até o último dia de campanha.

Manifestação com cartaz em defesa da democraciaManifestação com cartaz sobre o Supremo Tribunal Federal
Manifestações expressam posições distintas no debate político.

A eleição terminou, mas a disputa continuou

O segundo turno de 2026 foi marcado por uma controvérsia que ampliou a tensão entre as campanhas e o Judiciário. No dia 25 de outubro, problemas no transporte público na Bahia e em São Paulo, além das fortes chuvas no Sul e no Sudeste, dificultaram o deslocamento de eleitores até os locais de votação.

Diante da situação, as duas campanhas solicitaram a prorrogação do horário de votação. Os advogados de Lula recorreram inicialmente ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e, posteriormente, ingressaram com uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF). O processo foi distribuído por sorteio ao Min. Cristiano Zanin, que havia atuado como advogado de Lula antes de sua nomeação para a Corte.

Por volta das 17h, horário previsto para o encerramento da votação, Zanin determinou a prorrogação até as 19h em todo o país. Como parte das urnas já havia sido encerrada, o ministro esclareceu posteriormente que a medida valeria apenas para as seções onde a votação ainda estivesse em andamento. A decisão provocou críticas do presidente do TSE, Min. Kassio Nunes Marques, que apontou dificuldades operacionais e questionou a ausência de previsão normativa para a medida.

O episódio trouxe à memória as eleições de 2022. Na ocasião, operações da Polícia Rodoviária Federal (PRF), especialmente no Nordeste, provocaram denúncias de dificuldades no transporte de eleitores. O então presidente do TSE, Min. Alexandre de Moraes, determinou a interrupção das fiscalizações, mas não autorizou a prorrogação da votação, alegando que não havia comprovação de impedimento ao exercício do voto.

A diferença entre as decisões de 2022 e 2026 alimentou questionamentos sobre a atuação do Judiciário. Após a vitória de Lula, o Sen. Flávio Bolsonaro (PL/RJ) declarou que não reconheceria o resultado e anunciou a intenção de pedir a anulação da eleição, alegando que a prorrogação havia comprometido a igualdade de condições entre os eleitores.

No dia seguinte, Flávio mudou sua estratégia e passou a defender a cassação da chapa Lula–Alckmin, sob acusações de abuso de poder político e econômico. O PT, por sua vez, também questionou a atuação da campanha adversária. Em 27 de outubro, o Min. Flávio Dino determinou que a Polícia Federal investigasse suspeitas de interferência estrangeira e manipulação de conteúdos digitais em benefício da candidatura do PL.

Assim, a disputa que começou nas urnas ganhou novos capítulos nos tribunais. As acusações de ambos os lados ainda dependem de apuração, mas já demonstram como a desconfiança institucional permaneceu presente mesmo depois da divulgação do resultado.

A vitória de Lula foi resultado de uma combinação de fatores: a reorganização da campanha, a mobilização nas ruas e nas redes sociais, as propostas econômicas e a disputa de narrativas. Entretanto, a eleição também expôs um país dividido, no qual os adversários políticos passaram a ser apresentados como ameaças à própria democracia.

Lula conquistou seu quarto mandato presidencial, mas terá pela frente um desafio que ultrapassa a construção de uma maioria no Congresso: governar um país profundamente polarizado e contribuir para a recuperação da confiança nas instituições. Afinal, como fortalecer a democracia quando a desconfiança se tornou uma das principais armas das campanhas eleitorais?

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Quem escreve
Gabriel Alves

Cientista político, movido pela inquietação diante das injustiças e das arbitrariedades que acontecem no Brasil. Acredita que uma democracia forte depende de instituições responsáveis, respeito às liberdades e cidadãos dispostos a questionar o poder. Neste espaço, busca analisar a política com independência, profundidade e compromisso com o debate público.